sábado, 16 de fevereiro de 2013

Pipoca

Um fiozinho de óleo na pipoqueira, uma xícara de milho na pia, boa vontade e um filme interessante pra começar.

O cabelo loiro, fino, liso dela desce reto sobre as costas e para ali, no meio. O pijama, branco com detalhes róseos, blusinha e shortinho, e as pantufas nos pés. Não fosse a fome de pipoca, a imagem dela quase não combinaria com o cenário... com a cena. Mas era fofa. É que, antes, fazer pipoca era coisa de mãe... bem antes. Agora era coisa dela.

Bem melhor que "fazendo" a pipoca, era ela trazendo a pipoca. Uma vasilha arredondada, verde, quase transbordando, que ela abraçava com uma mão na altura da cintura, fina, e com a outra mão, tentava não deixar que caíssem os grãos dali. Quase deu certo... mas feito João e Maria, ela andou da cozinha até a sala deixando um leve rastro. Só pra saber por onde passou. Ainda era fofa.

No sofá, três lugares. O da ponta esquerda, dela, pra apoiar o braço esquerdo. Os outros dois, pra eu deitar no colo dela. Colo de moça... cafuné de moça. Que filme, que nada. Eram só a pipoca e os olhos cor-de-mel, quase verdes dela. Não eram oblíquos, nem de ressaca -- Machado não falava dela -- mas eram lindos. Ávidos, grandes, lindos. Levemente amendoados... Lindos.

"Não vai ver o filme?", pergunta, fingindo não entender o que eu tanto olhava. "To vendo", eu, brega. E ela abriu o sorriso dela, que me faz bem. Corou as bochechas e soltou um "bobo", como quem fosse tímida. E eu já nem queria pipoca. Ela, numa manobra, me deu um beijo no nariz e se levantou. Ia pegar o guaraná porque, apesar da noite e da porta da sala aberta, fazia calor.

E nisso, eu acordei com o sol na cara. Não tinha gosto de pipoca, nem cheiro de colo, nem a memória do tato daquele beijo no nariz. Levantando, na geladeira eu vi que não tinha guaraná. Aliás, não tem há algum tempo. O povo aqui só toma Coca.

E lá fui eu procurar uma florzinha de mato, daquelas bonitas, pra colher. Talvez, a de um pé de araçá, que não respeitasse o tempo de florir.

A gente sonha porque pode. E não só quando quer.

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